terça-feira, março 27, 2012

Adorno de pulso

Ainda me mexo como se fosse gordo. Como se tudo à volta ocupasse o espaço que o corpo pretende ocupar. Sou novo, mas revolvo-me como se estivesse no final da minha inocente vida...

"Os aviões incidiam sobre os altos prédios prolongados ao longo do rio. A revolta exibia-se. O fôlego ofegante contraia-se à medida que as chamas suprimiam a via ladeada de casas. Tudo era fumo. Tudo era vasto e insignificante. O prédio, de onde anteriormente me acenavas, caiu de tão velho que era. Soube oficialmente que te encontravas lá dentro. Imaginava, em noites longínquas, encontrar-te por aí aos caídos pela rua na esperança que alguém te levasse para casa. Soube mais tarde que nunca te chegaram a encontrar. Foste mais uma no meio de desaparecidos. Um dia decidi procurar-te, entrei nas ruínas definidas pelo tempo em que ali se encontravam. Deveria prestar-te um adeus oficial?
Não aguentei lá dentro. Afastei-me. Havia quem achasse que a minha necessidade de te encontrar era louca. Outros, por fim, corriam comigo de lá de dentro. Suprimiam a fala "Não te quero voltar a apanhar aqui outra vez." vezes e vezes sem conta.
Voltava para casa na ânsia de lá voltar mais tarde quando todos estivessem no restaurante italiano a cinco quarteirões. Claramente nunca resultou. A vigia tornava-se cada vez mais constante.
Tempos mais tarde decidiram fechar a área e torná-la interdita a "pessoal estranho ao serviço". Desisti. O telemóvel, ligado à corrente, exibia a sua fotografia enquadrada num ângulo perfeito. Liguei-lhe. "Veio parar à caixa de correio..." "Estaria demasiado louco? " Tocaram à porta.
- Boa tarde. O seu vizinho do lado disse-me que se chamava Brian..?
- Sim, sou eu mesmo.
- Encontrámos esta pulseira com o seu nome. É sua?
Olhei estafado para o pulso. Peguei nela, agradeci e fechei a porta. "É dela."
Tinha-lhe oferecido a pulseira com o meu nome num dos nossos encontros mais matrimoniais. Desde ai que a vira sempre a usar. Depois de todos os destroços ainda sentia o seu perfume penetrado nos arames do objeto. Sabia que tinha acabado. Fiquei com ela no coração."

...Estimo a pulseira com todo o apoio que tenho. Agora estou aqui. E tu ai. Um dia estaremos no mesmo local, outra vez.

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common reality.