sábado, julho 13, 2013

França como Refúgio - Parte 1

(título provisório. talvez.)  

   Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. Histórias perdidas no tempo, consagradas através de palavras escritas em folhas brancas. E antigas,talvez. Francis mencionava-o constantemente -  "Nunca irás entendê-la se não te aprofundares nela."
A sua razão era exuberante. Ainda mais o era o seu aspeto; o cabelo arranjado, a roupa pouco formal mas apelativa aos olhares indiscretos... e aqueles óculos que o protegiam da excessiva luminosidade solar. Um prematuro em línguas, de facto.
   Licenciado numa das melhores universidades de Nova Iorque, (Columbia que, para os mais curiosos, significa pomba. such a metaphor.) ocupava agora os seus dias a coordenar as suas próprias produções. Eventualmente, ocupava-se da sua vida pessoal ainda que sempre rodeado de livros historiográficos ou literários. Elogiava Saramago, as suas frases complexas e as suas orientações consecutivas. Tal como ele, era defensor da ideia que "fisicamente habitamos um espaço mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória". Só por si, algo curioso.
   Mudara-se, uns anos mais tarde, para França com a ânsia de encontrar novos patrocinadores  para as suas composições. Ficara hospedado por uns dias no Hotel Pavillon Republique Les Halles até ter comprado o seu próprio apartamento. Consistia num aposento bastante simples - dois quartos (sendo que um deles o utilizava como escritório para a sua escrita), cozinha, casa-de-banho e um salon deslumbrante. Algo perfeito para um escritor.
   Assim como nos restantes dias, saíra do seu alojamento, perto das nove horas e dirigira-se para o café Boulangerie, local onde tomava frequentemente o seu café e saboreava o delicioso croissant (que fora introduzido pela arquiduquesa Marie Antoinette em tempos passados) já há muito apreciado pelos habitantes do país. Com um aspeto meramente formal, distinguia-se das outras entidades que lá passavam os seus serões. Era, portanto, um reconhecido da "casa". Sentava-se, diariamente, na mesma cadeira do costume - um recanto bem acolhido em torno de uma janela que aduzia uma paisagem extraordinária da Tour Eiffel.
   - Bonjour mon amie. - cumprimentava, de modo agradável, o empresário do estabelecimento.
   - Bom olhos te vejam, Pierre. É o costume, por favor.
   Após se deleitar sobre a primeira refeição do dia, pegou no jornal e folheou as páginas com artigos de emprego. Apesar de já se encontrar há cerca de um ano em França, ainda não se tinha empregado. Vivia de uma certa quantia de dinheiro que guardara desde que saíra do ensino secundário. Do tempo em que trabalhava em part-time numa loja de animais para conseguir os seus próprios investimentos para o futuro. Bastante eficaz. Foi após a leitura árdua dos anúncios no jornal semanal que encontrara um cargo de jornalismo numa empresa mediamente conhecida. Dependendo do que fosse necessário escrever, talvez desse a si mesmo uma chance.
   Exatamente nesse momento, em que levantara os olhos do papel para tomar gosto a mais uma dentada do croissant, que vira entrar pela porta da frente alguém que nunca tivera a oportunidade de encontrar nas suas estadias. Alguém que tomara a sua atenção o resto do tempo.

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common reality.